Partilhamos convosco o convite à oração lançado pelo P.e António Martins, Assistente do SPPD, na oração do passado Domingo.

Queridos Amigos

Queridos Amigos Especiais

Damos graças a Deus por estarmos aqui numa cadeia orante de Bragança ao Algarve, louvando e agradecendo a Deus pelo dom único que cada um de nos é. Uns em direto, outros com o seu contributo gravado. Acreditamos e experimentamos que a oração é uma poderosa força de inclusão, que a todos inclui no louvor de Cristo ao Pai.

Também nós queremos entrar no louvor de Cristo. Por Cristo e com Cristo, louvamos a Deus por sermos quem somos, com a nossa história única, os nossos dons, os nossos limites e fragilidades. Louvemos a Deus pelas nossas profundas fragilidades, aquelas que escondemos até de nós mesmos, que nos envergonham humilham. Elas são as brechas pelas quais Deus entra nas nossas vidas, nos humaniza e nos torna mais fraternos, porque mais necessitados uns dos outros.

Louvemos a Deus nosso Pai pelo que temos recebido das pessoas com deficiência a quem permitimos estar próximas de nós, ou que fazem parte integrante das nossas famílias. Agradecemos o dom (inesperado e imprevisível) da sua presença. Dom que nos desconcerta, nos deixa perplexos e envergonhados. Dom que fomos aprendendo a aceitar. E agora descobrimos, agradecidos, que sem o dom da sua presença e generosidade, da sua alegria extasiante, da sua imprevisibilidade desconcertante, a nossa vida seria mais pobre.

Jesus «exultou de alegria sob ação do Espírito Santo». Só na alegria do Espírito podemos agradecer a loucura do amor, o desconcertante da vida, a força da fragilidade. Pelo Espírito a vida solta-se, sai das normas, torna-se plástica, imprevisível. O espírito nos coloca na comunhão de dons e de vidas; descobrimos a alegria e a fecundidade da fraternidade, como, com os nossos limites, nos completamos uns aos outros. Descobrimos que não nos bastamos a nós mesmos e precisamos uns dos outros.

Descobrimos que as nossas fragilidades, que nos envergonham, são uma poderosa força de fecundidade e de interdependência. O que nos limita é também o que nos aproxima uns dos outros. O nosso individualismo e a nossa autonomia ficam rasgados pela necessidade da complementaridade do outro, que nos completa e supera. O que me limita é, de igual modo, o que me aproxima dos meus irmãos e irmãs, o que me leva a buscar e a acolher a sua cooperação, o seu cuidado, a sua ajuda. A nossa vida está suportada por uma cadeia infinita de cooperação e de ajuda: Por tudo isso entramos no louvor de Jesus: «Eu te louvo, ó Pai (…) porque ocultastes essas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos».

As pessoas com deficiência são esses «pequeninos», despojados de certezas intelectuais e até de competências físicas e motoras, a quem são revelados os mistérios do Reino. Diz o evangelho, para nos deixar desconcertados, que elas estão mais próximas do conhecimento e da ternura, filho/filha de Deus, esse colocar-se desprotegido e indefeso no colo do Pai, tudo dele recebendo. Nós, que nos julgamos «normais», escondemos as nossas fragilidades numa armadura de certezas e de eficácia, exibindo as nossas competências.

Os «pequeninos», simplesmente, são. Não se queixam, não se lamentam, não recusam a vida (frágil e forte) que neles se dá e acontece. São inteiros, em seus limites. Desconcertam-nos em sua alegria exuberante, ruidosa, excessiva. Como é possível com tantas limitações haver um tamanho encanto jubilatório, um excesso de graça dos quais fugimos envergonhados?… Não suportamos tamanha e incontida verdade de viver. A verdade pura e simples de sermos filhos e filhas de Deus: «ocultaste essas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos».

Senhor, o teu Filho deixou-nos palavras de escândalo e de loucura insuportáveis e provocatórias para nós: «Todas as vezes que o deixaste de fazer a um destes mais pequeninos, foi a mim que o deixaste de fazer» (Mt 25,25-27). O teu Filho identificado/escondido/disfarçado de pequenino, de estrangeiro, de faminto, de preso, de pessoa com deficiência?!… Resistimos tanto a nos deixarmos entrar nessa lógica evangélica virada do avesso. Mas esta é a revelação que o teu Filho nos quer oferecer. E que nós adiamos, sufocamos e recusamos.

Recordamos as palavras do Papa Francisco na encíclica Fratelli tutti: «cada irmão ou cada irmão que sofre, abandonado ou ignorado pela minha sociedade, é um forasteiro existencial, embora tenha nascido no mesmo país» (FT 97). Quantos «estrangeiros» e «exilados» existem dentro (e sobretudo fora) das nossas comunidades cristãs, no nosso circulo de sociabilidades?… «Exilados ocultos», e o maior ocultamento é não lhe darmos visibilidade. Não os reconhecemos com o nosso olhar. São tratados como «corpos estranhos à sociedade», a começar pela estranheza do seu próprio «corpo estranho», fora das normas de eficácia e da competência. E, todavia, o «seu corpo estranho» é carne vulnerável de Cristo, seu modo de vir a nós identificado com o «mais pequenino».

Tanto caminho já percorrido, tanto caminho por percorrer. Temos diante de nós o urgente apelo do Papa Francisco: o de «ungir de dignidade [as pessoas com deficiência] para uma maior participação ativa na comunidade civil e eclesial». O caminho da fraternidade é o caminho da Igreja, o seu único caminho. Porque é o caminho do Evangelho. A urgência de uma fraternidade inclusiva da nossa humana fragilidades é uma profecia de futuro. Mas, sobretudo, uma profecia a acolher e a dar cumprimento já hoje, no presente, no reconhecimento de cada um «como pessoa única e irreparável».

«Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste essas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos».