No passado dia 10 de Outubro, Julia Kristeva, escritora búlgara, psicanalista e professora emérita da Universidade Paris Diderot-Paris 7, recebeu o título de doutor Honoris Causa pela Universidade Católica Portuguesa. Destaca-se a correspondência trocada com Jean Vanier sobre as pessoas com deficiência

Partilhamos excerto da notícia do 7Margens escrita por Maria Luísa Ribeiro Ferreira (professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa):

«De entre a riqueza e prolixidade da obra de Kristeva – mais de trinta livros publicados, centenas de artigos, inúmeras conferências em universidades de renome – destaco no entanto uma faceta pela qual é menos conhecida: o olhar amoroso sobre a vulnerabilidade, olhar que se expressa através da relação com David, o seu filho deficiente.

Kristeva empenhou-se na luta por uma ética que pudesse coabitar com o limite e com o impossível. Em 2005 organizou na Unesco de Paris os “Estados Gerais das Pessoas com Deficiência”, procurando reunir gente de diferentes religiões e credos políticos. Em 2009, foi publicada a sua correspondência com Jean Vanier, fundador de l’Arche, uma organização internacional que actualmente engloba 147 comunidades em 35 países e em cinco continentes. O seu objectivo é criar casas, programas e redes que integrem pessoas portadoras de deficiência.

Enquanto Vanier vê nos deficientes criaturas de Deus, Kristeva considera-os “sujeitos políticos de um humanismo a reinventar”[2]. No entanto, ambos comungam da ideia de que os deficientes são pessoas com as quais é possível fazer comunidade; ambos consideram os deficientes como uma fonte possível de amizade e de alegria. L’Arche surge como um lugar onde as relações não assentam na competitividade, um lugar onde se acolhe a diferença, onde se aprende a conviver e a ultrapassar os medos.

Para Kristeva, a deficiência ajuda a esclarecer a complexidade do humano, incitando-nos a decifrar a lógica obscura das diferentes vulnerabilidades. Por isso reclama direitos políticos para os deficientes. Conviver com a deficiência é admitir que desconhecemos o que é o ser humano, pois há uma tirania da normalidade que leva ao afastamento dos que se desviam da maioria.

Jean Vanier vê em Jesus um homem fraco, vulnerável, terrivelmente humano mas também divino. Por isso deseja uma Igreja mais perto dos pobres, dos excluídos e dos vulneráveis. A sua fé não é num Deus poderoso mas num Deus que se fez pobre e frágil. Importa assumir essa fragilidade criando possibilidades de uma convivência entre normais e deficientes, de modo a que juntos celebrem a vida.

Kristeva defende que a escuta é feita de ternura e de acolhimento. Não sendo crente, há nela uma sintonia total com a virtude cristã da compaixão. Os deficientes são marginalizados pelas suas limitações. Há que as assumir mas há também que lutar contra preconceitos, como por exemplo a resistência das empresas em contratar pessoas portadoras de deficiência, ou a vergonha das famílias, ou as atitudes de estranheza e de medo perante quem é diferente. Acolher a diferença não é fácil, pois implica a aceitação das nossas próprias fraquezas e, também, da nossa morte. Mas não podemos esquecer que viver humanamente é aceitar as fragilidades, integrando-as e estabelecendo com elas um diálogo permanente.

Através da correspondência travada com Jean Vanier, ficamos com uma visão diferente da filósofa. Os textos que dela conhecíamos mostravam-nos uma pessoa segura e assertiva, com posicionamentos inovadores em domínios complexos e ainda pouco dominados pela comunidade científica. Ao partilhar as suas angústias em Leur regard perce nos ombres, Kristeva assume-se como companheira de todos os que lidam com a deficiência (pais, cuidadores, voluntários), situando-os e situando-se no plano dos “desenraizados da certeza”[3]. Apelando para uma vulnerabilidade solidária propõe-se construir uma filosofia que dê lugar aos que não podem nem nunca poderão filosofar. Através do seu filho David, sentiu na pele o que é ser olhada pela lente da normalidade. E porque esse olhar a magoou, desafia-nos a construir uma nova forma de estar no mundo. Daí a sua proposta de um novo humanismo, no qual os deficientes sejam encarados como parceiros de diálogo. E quando tal não é possível, como pessoas que nos obrigam a repensar a fronteira da normalidade, construindo pontes e ultrapassando barreiras. » ler texto completo aqui

Veja também a notícia da Universidade Católica Portuguesa aqui.